O Centro de Pesquisas do Cacau (CEPEC), da CEPLAC/MAPA, foi fundado em 1964 e, deste então, vem atuando fortemente em pesquisas com cacaueiro, seringueira, dendezeiro, dentre outros, abordando as diferentes disciplinas do conhecimento, com grande ênfase no melhoramento destes cultivos. Como parte destes programas de pesquisas, milhares de plantas são estabelecidas no campo, que são mensalmente avaliadas, para diferentes variáveis. Tradicionalmente estes dados são coletados em formulários em papel e digitados em planilhas eletrônicas (ex. Microsoft Excel), em computadores de diferentes pesquisadores, às vezes com diferentes formatos. O que dificulta a tomada de decisões, particularmente aquelas em que vários aspectos precisam ser considerados, em limitado tempo, como as decisões envolvendo a seleção de uma planta ou variedade. Assim surgiu a necessidade de serem criados sistemas que permitissem não só o armazenamento, mas também o manuseio (buscas, junção e sumarização) de todas as informações geradas em programas de pesquisa, particularmente em programas de melhoramento. Posteriormente, percebeu-se também a necessidade de outros sistemas que facilitassem a coleta de dados em ensaios de campo e laboratório, aproveitando dos avanços e redução dos custos de celulares.
Visando atender demanda de tamanha envergadura, o CEPEC buscou parceiros na iniciativa privada. Em 2011, com este objetivo, foi estabelecida uma parceira público-privada informal do CEPEC com a empresa Acesso Soluções em Tecnologia da Informação (Acesso), com sede em Itabuna-BA. A Acesso, embora fundada somente em 2010, tem larga experiência no desenvolvimento de softwares de interesse comercial, incluindo-se sistemas descentralizados de compra de produtos agrícolas, sistemas de licitação pública, controle de produção agrícola, dentre outros. Estabelecida esta saudável parceria passou-se então desenvolver alguns projetos de softwares, tendo sempre como filosofia, que os mesmos fossem de domínio público e que pudessem ser usados para outras espécies de plantas além daquelas trabalhadas pela Ceplac.
O primeiro destes projetos foi aquele visando o desenvolvimento de um sistema que pudesse armazenar, em uma única plataforma, todas as informações comumente geradas em programas de melhoramento de plantas – o AgroGen – incluindo-se: a) descrição dos ensaios estabelecidos (datas de estabelecimento e conclusão, delineamentos estatístico e genético, tratamentos, croqui, etc); b) informações sobre germoplasmas (local de coleta e armazenagem, pedigree, fotos, etc); c) dados fenotípicos de diferentes naturezas e quantidades; d) dados moleculares; e) informações sobre membros da equipe e parceiros (nome, endereço, etc.); e f) diário de eventos e práticas ocorridas no ensaio. O AgroGen pode ser instalado em um único computador ou em rede, permitindo o acesso simultâneo de vários membros da equipe (com o uso de senha), em diferentes departamentos ou instituições. A primeira versão do AgroGen encontra-se disponível nesta página, para todos os pesquisadores brasileiros cadastrados, gratuitamente.
Além do AgroGen, dois outros projetos de softwares vêm sendo desenvolvidos dentro da parceria CEPEC-Acesso e serão liberados em breve para os pesquisadores brasileiros, também gratuitamente. O primeiro deles, o AgroTeca, permite o cadastro de isolados de fungos armazenados em micotecas com detalhada descrição dos mesmos (local de coleta, datas, órgão da planta, etc), bem como o manejo do estoque de esporos armazenados para posterior uso em inoculações. O AgroTeca, além de controlar o estoque (entrada e saída de suspensões de esporos, permite o uso mais eficiente das suspensões em estoque e mantém o registro das inoculações realizadas. Este programa já vem sendo usado rotineiramente por pesquisadores da área de fitopatologia do Cepec, porém, necessita alguns ajustes antes de ser liberado para uso em outros cultivos.
O segundo projeto é de desenvolvimento de um sistema (o AgroForm ) que permite a coleta de dados científicos em celulares de baixo custo, incluindo-se celulares usados e não mais úteis para telefonia. O AgroForm permite que o próprio usuário elabore formulários de coleta de dados (similares àqueles em papel) de forma fácil (usando o Bloco de Notas do Windows), com qualquer número e formato (texto, numérico) de variáveis. AgroForm permite também que grande número de dados possam ser armazenado, possibilitando assim que vários ensaios possam ser avaliados, sem a necessidade de transferir os dados para o computador. O AgroForm vem sendo usado em regime de teste, na coleta de dados de ensaios de melhoramento de cacau, sob condições de campo. Atualmente os dados são descarregados somente via cabo USB, mas uma versão beta que permite o envio dos dados do local do ensaio diretamente para o computador do pesquisador vem sendo testada, com alguns limitantes que precisam ser corrigidos. Alguns celulares descartados (para telefonia) vêm sendo usados nestes testes, visando a homologação de uso dos mesmos no futuro. A liberação do AgroForm para os pesquisadores interessados deverá ocorrer até Dez/2014.
Outras idéias, além daquelas envolvendo a melhoria dos três sistemas em desenvolvimento, vêm sendo maturadas no contexto da parceria Acesso-Ceplac. Dentre elas um AgroGen que possa rodar em ‘tablets’, em conexão com o AgroGen instalado em rede. Isto permitirá que o pesquisador tenha no campo informações contidas na base de dados central do AgroGen, tais como croquis experimentais, tratamentos e análises básicas. Outra idéia é que o AgroForm, além de ser usado na coleta de dados, possa ser carregado com estimativas de estatísticas (ex. médias, somas) geradas por programas de análises no computador, permitindo seu uso no campo, por exemplo, para seleção de plantas (com rápido acesso de toda informação referente àquela planta, tal como, produção, resistência a doenças, qualidade, pedigree, etc). Outras idéias, usando celulares mais avançados (smartphones), que permitam além da coleta de dados fenotípicos, permita a coleta automática de posição geográfica (latitude, longitude), bem como tirar fotos e associar estas a certos registros. Mas sonhamos também com outras aplicações, tais como monitoramento em tempo real, de epidemias como a dengue; uso de celulares na administração de fazendas ou de fluxo de caixa para agricultores familiares. Infelizmente, somos somente dois pesquisadores-sonhadores, com nenhum recurso externo àquele das nossas instituições, e com pouquíssimo tempo para dedicar a estes sonhos, já que nossa função principal é desenvolver variedades de cacau (Uilson Lopes) ou softwares de interesse comercial (Reynaldo Garcia).